Em 1868, Alberto Pimentel era estudante do Liceu, tinha então 19 anos de idade.
Assistiu a um outeiro no Mosteiro de S. Bento de Avé-Maria, que então ocupava o actual espaço da estação de S. Bento. Foi acompanhado pelo seu inseparável amigo Sousa Viterbo, como já era conhecido das freiras, por lá ter uma prima, não teve dificuldade em entrar.
Ficou deliciado com as iguarias e vinhos finos. A música também esteve presente, através do Maestro Miguel Ângelo (no piano), Marques Pinto (violino) e do mestre Moreira de Sá. Os poetas glosaram até altas horas a mote das seculares.
Alberto Pimentel retira-se com o seguinte verso:
Tenho hoje aqui glosado
Motes a êsmo, a granel
Consenti, minhas senhoras,
Que eu desta feita termine
E perante vós se incline
Vosso servo Pimentel.
Adaptado de: “Figuras Literárias Portuenses” de Artur Magalhães Basto, Porto, Livr. Simões Lopes de Manuel Barreira, 1947
January 15th, 2006 in
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Uma leitora atenta deixou-nos este trecho de um dos meus romances históricos preferidos.
“Sou pelos magros, nem posso ser por outros; leva-me para eles um sentimento de simpatia, gosto deles, embora digam que tenho a vaidade de gostar de mim mesmo. Grandes merçês me fez Deus em me não dar repolhudo e atoicinhado; sinto-me cómodo e portátil como um saco de viagem. Não incomodo ninguém. Este é o grande princípio moral: Não faças a outros o que não quererias que te fizessem.”
in O Anel Misterioso, pág. 171
PS: O desenho que ilustra este texto é da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro (”A Paródia” - Ano I - Lisboa 1900)
January 10th, 2006 in
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Eis uma obra essencial para o estudo de AP - “O Porto na Berlinda - Memórias de Alberto Pimentel” - ainda por publicar em formato adequado, da autoria de Rute Santos de Castro Lopo e Faro.
“O grande objectivo desta dissertação de mestrado é analisar a forma como pela memória, Alberto Pimentel colocou na sua obra o Porto na Berlinda. Ao estabelecermos o Porto como lugar de memória na escrita do autor, pretendemos compreender a relação recíproca estabelecida entre o presente e o passado. Diante dos dois lados do espelho da memória, o presente e o passado, o autor recorda os rostos , os nomes, o sentir e o pensar de lembranças saudosas de outro tempo. Portanto, ao analisar as longas páginas que nos deixou, acompanharemos o autor quer pelos quadros mentais e físicos que, ao correr da pena, esboçou, quer pelos sentimentos múltiplos e dúplices que o Porto, enquanto lugar de memória, lhe despertou.”
December 30th, 2005 in
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Alberto Pimentel escreve, em “Vinte Anos de vida literária”, sobre o seu pai:
“Ele foi um dos últimos homens dessa geração quási extinta, que trouxeram do lar paterno a noção austera do dever e a impressão profunda dos bons exemplos domésticos. Tudo era antigo na educação desses homens, hoje já tão raros que viveram os primeiros anos da sua vida em plena atmosfera de tradições sagradas e invioláveis, e que professavam pelo passado um culto cotidiano, no meio de criados velhos, de velhas loiças da India, e de velhos retratos de avós falecidos. Todas as grandes solenidades religiosas não passavam sem comemoração doméstica; eram outras festas de família, muito íntimas e muito expansivas. O Natal, a Páscoa e os dias solenes da Igreja, eram esperados com júbilo, e celebrados com devoção tradicional. E sentar-se um pai à mesa, nesses dias memorandos, rodeado de todos os filhos e de todos os parentes, era para os homens da geração quási extinta um doce prazer patriarcal, puro e simples, e gôso perente da felicidade pela família“.
(actualização)
Contributo de RF:
“O passado é um país ideal onde se envelhece ao cabo de algumas horas de concentração”
Alberto Pimentel, “Vinte Anos de Vida Literária“
December 23rd, 2005 in
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Já tinhamos referido este quadro para introduzir o tema, passemos à explicação da sua importância.
Escreve Alberto Pimentel no seu “Fitas de Animatógrafo“:
“O pretexto do quadro é a passagem do regimento de infantaria 18, porta-machados à frente, pela estreita rua da Sovela, depois 16 de Maio, e hoje dos Martires da Liberdade…
Pessoas conhecidas no Porto d’aquela época - que remonta a quarenta anos de distância pelo menos - detém-se a observar esse espectáculo marcial, que tanto alvoroçava então, à falta de melhor, os transeuntes e moradores da cidade invicta e dormente. Na varanda do prédio, que separava as ruas da Sovela e do Coronel Pacheco, uma família assiste, ávida de sensações, à passagem do regimento.
…
Por agora apenas quero dizer que o homem de óculos escuros, mãos apoiadas sobre a varanda de ferro, que assiste à passagem do regimento, no prédio que separava as ruas dos Martires da Liberdade e do Coronel Pacheco, era meu pai, antigo médico portuense.
… E também são retratos, igualmente fieis, muitas das outras figuras do quadro: à direita, no plano da rua, Pedro de Amorim Viana, por antonomásia, o «Newton»; Francisco José Resende, Manuel José Carneiro, João Correia, professores da Academia de Belas Artes, e uma celebridade das ruas, o «José das Desgraças», protagonista do romance Anel Misterioso; à esquerda, presenceando o desfile do alto da sua «charrette», o glorioso avô dos «sportmen» portuenses, Ricardo de Clamouse Brown.”
Segundo AP, este quadro esteve exposto no Ateneu Comercial do Porto em 1908-09, pertencendo ao Dr. Severiano José da Silva (1865-1937).
Actualização:
Um artigo sobre o Dr. Severino José da Silva no Tripeiro de Maio deste ano: Os grandes vultos do Porto - O Dr. Severiano José da Silva.
December 10th, 2005 in
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Artur de Magalhães Basto em “Os primeiros vinte anos da vida de Alberto Pimentel” escreve o seguinte sobre o avô de AP:
“Na vida deste homem houve um romance dramático, de que nasceu o pai de Alberto Pimentel (Fortunato), logo seguido da morte daquela que de amor se perdera pelo jovem bacharel coimbrão.
Entre um berço e um túmulo, o Doutor Fernando António de Sousa Pimentel, em plena mocidade, esmagado pela dor, aniquilado pelo desmoronamento de suas ilusões, decidiu renunciar à convivência e ao ruído do mundo. Fêz-se padre, e sendo em breve colado abade da freguesia de Silva Escura, na Maia, foi habitar entre sombrios pinhais gementes, na solidão do seu presbitério, revivendo na memória as tristes recordações da sua perdida felicidade. Aí durante longos anos esperou, resignado e tranquilamente, a morte - que só em 16 de Março de 1853 o veio arrancar dos seus melancólicos devaneios.”
Esta descrição de Magalhães Basto não é mais que um resumo do que escreve AP no capítulo “Memórias de uma família portuense” do livro “O Porto na Berlinda“.
Fernando parece destinado à vida religiosa antes de conhecer a sua suposta paixão, assim o atestam alguns assentos de baptismo da paróquia de São Mamede Infesta entre 1789 e 1797 em que surge sucessivamente como testemunha juntamente com Domingos Vaz Leite, que viria a ser seu cunhado. Era abade da paróquia, Cristóvão António de Oliveira Magalhães, que poderia ser seu parente (tio materno?) e que já tinha sido padrinho de baptismo de uma irmã de Fernando.
Entretanto em 1790, Fernando inscreve-se na Universidade de Coimbra para frequentar Instituta e a 12 de Junho de 1794 faz-se Bacharel.
Provavelmente depois de regressar de Coimbra apaixona-se por Maria Felícia Xavier de Oliveira Porto, filha de António José de Oliveira Porto, familiar do Santo Ofício e Cavaleiro da Ordem de Cristo, e de D. Maria Leocádia Angélica da Graça Andrade. Maria Felícia, que ficou orfã em 1804, vivia com a sua tia paterna Maria Inácia, viúva do Ten. António José de Sousa Pimentel (tio de Fernando), o relacionamento parece surgir naturalmente entre familia muito próxima.
Assumindo que Maria Felícia morre de parto, o que não foi até ao momento possível comprovar documentalmente, alguns factos parecem contradizer a versão aventada por AP.
Por um lado, Fernando só toma posse como Abade de Silva Escura a 26 de Outubro de 1823 ou seja 15 anos após a morte de Maria Felícia, assim o atesta AP no livro “Santo Tirso de Riba D’Ave” citando o documento da nomeação do avô. E há ainda o facto de em 1817, Fernando ter sido nomeado Almotacé, cargo que poderá ter desempenhado por alguns anos, segundo documento existente no Arquivo Histórico.
Tudo leva a crer que Fernando, ao invés de ter prontamente optado pela vida religiosa, se tivesse dedicado à educação de Fortunato e só depois, finda a tarefa, refugiado em Silva Escura. Fernando faz-se Abade em 1823 e Fortunato inscreve-se na Escola Médica em 1825.
December 9th, 2005 in
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Nos artigos anteriores refere-se a infância conturbada que teve Fortunato Pimentel, e que não passou unicamente pelo período de convulsões políticas.
Fortunato nasceu em Cedofeita no dia 8 de Agosto de 1808, tendo sido baptizado no dia seguinte em Leça do Bailio como filho de pais incógnitos e assistente em casa de Ana Maria da Silva, mulher de Luís da Silva, no lugar do Padrão do Araújo - Leça do Bailio. Presume-se que até pelo menos 1825, data em que se inscreve na Escola Médica, desconhecesse a sua verdadeira filiação embora, por certo, fosse acompanhado pela família à distância. O Dr. Maximiano Lemos refere, na sua obra “Camilo e os Médicos”, que a certidão usada para inscrição na Escola Médica é a citada e que no processo de matrícula o pai de AP assina apenas como Fortunato Augusto.
Fortunato termina o seu curso em 1830 e vê-se envolvido na Guerra Civil onde terá servido no Hospital de Sangue da Formiga (situado em Valongo?) pelas hostes miguelistas.
A 25 de Fevereiro de 1836 nasce na Sé, Isabel Júlia(1), filha de pais incógnitos, apadrinhada por Fernando de Sousa Pimentel e D. Francisca Fortunata de Sousa Pimentel, esta última residente na Rua de Santo Ovídio. Isabel foi o motivo do primeiro casamento de Fortunato, um misterioso casamento cujo assento teima em não aparecer, e que gerou mais duas filhas, Eulália e Maria Bárbara.
Fortunato casou assim, em primeiras núpcias, provavelmente depois do nascimento de Isabel com Maria Bárbara Pimentel Meireles, sua prima direita, filha da supra mencionada Francisca Fortunata de Sousa Pimentel.
Quem era então Fernando de Sousa Pimentel ? Nem mais que o pai de Fortunato e irmão de Francisca, a mãe falecera no parto(2). Fernando fizera-se Abade de Silva Escura com o desgosto da perda da mulher amada.
Nesta altura, várias teorias se levantam, parece provável que Fortunato tivesse vivido ou frequentado a casa da sua família, na Rua da Sovela em Cedofeita, antes de 1836, de que outra forma teria conhecido a sua prima Maria Bárbara? Por outro lado, as duas outras filhas nasceram em S. Martinho da Barca (Maia) em 1837 e 1838 respectivamente. Nesses assentos, Fortunato vem novamente referido como filho de país incógnitos, mas já como Fortunato Augusto Pimentel. Outra das curiosidades destes assentos é o facto de surgir num deles uma testemunha residente em Silva Escura, não há coincidências!! Por explicar fica o nascimento das duas crianças na Barca, já que seria natural que Fortunato, depois de casado com Maria Bárbara, fosse viver para a casa da Rua da Sovela.
Maria Bárbara falece a 21 de Agosto de 1846, não sem antes se lavrar o seu testamento, a 4 de Janeiro de 1846(3), onde Fortunato vem mencionado como Fortunato Augusto de Sousa Pimentel. Este é o primeiro documento que atesta a ligação familiar de Fortunato (sem a explicar). A sua verdadeira filiação, tal qual a conhecemos, vem descrita no assento do seu segundo casamento.
Assim, a 23 de Dezembro de 1848, casam em Miragaia, Fortunato Augusto Pimentel, filho natural do Dr. Fernando António de Sousa Pimentel e de D. Maria Felícia de Oliveira Porto, neto paterno do Dr. Francisco de Sousa Pimentel e de D. Maria Bárbara de Sousa Pimentel e materno de António José de Oliveira Porto e de D. Maria Angélica de Andrade, com D. Anna Olímpia Bragante de Almeida, filha legítima de João Sabino de Almeida e de Maria Amália Coelho Bragante.
Notas:
1 - Este nome não é escolhido por acaso, é o nome de uma irmã de Fernando e de Francisca;
2 - AP conta esta história em “O Porto na Berlinda”, e que vai originar um artigo a lançar aqui para esclarecer alguns pontos;
3 - Maria Bárbara já estaria em risco de vida em Janeiro de 1846, esse facto é referido no seu testamento.
November 29th, 2005 in
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“António José da Costa, nasceu em Cedofeita em 1840, filho de António José da Coata e de Margarida Rosário da Costa.
Matriculou-se na Academia Portuense de Belas Artes em 1853, terminando o seu curs, que é de dez anos, em 1862. Conseguiu, portanto, vencer num ano dois.
E no último, quinto de pintura histórica, foi aprovado com louvor.
Na exposição internacional de 1865, no Palácio de Cristal do Porto, obteve com o belo retrato de seu pai menção honrosa, e depois em várias exposições de Lisboa e Porto tem sido honrado com medalhas de terceira e segunda classe.”
Alberto Pimentel in Fitas de Animatógrafo, pág. 175
November 20th, 2005 in
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(continuação)
No 37º aniversário da sua morte
Sinto no coração uma saudade viva por um morto, que foi meu Pai. O calendário marcou para mim, em letras bem negras, a data do seu falecimento - 13 de Julho. Há trinta e sete anos que ele morreu.
Lembro-me desse dia como se fôra o de hoje. Era dia de Santo António. Morava eu, então, com a minha família na Rua da Boa Hora, 36, num prédio de três andares, que ainda lá está com o mesmo aspecto, mas revestido a azulejo azul.
Todo o Porto conheceu meu Pai que, pelo seu trabalho e pela honestidade de vida, se tornou credor da estima dos seus colegas e amigos. Foi quase um João Semana que trabalhou incansávelmente até aos oitenta e dois anos e que só meia dúzia de meses antes da sua morte teve de abandonar a sua clínica, por já não ter forças para mais.
Nestas linhas fugidias, escritas muito ao correr da pena, quero prestar a minha homenagem à memória desse santo velhinho que só viveu para a família numa adoração sem limites.
Meu pai nasceu no Porto e foi sempre um tripeiro de gema. Muito estudioso e com inclinação para a carreira médica, matriculou-se, muito novo, na Real Escola de Cirurgia, a 26 de Novembro de 1825, no primeiro ano da sua fundação. Cinco anos depois estava formado.
Por ocasião da celebração do Centenário da Faculdade de Medicina tive curiosidade de procurar na secretaria da Escola a matrícula de meu Pai e a de seus condiscípulos, que bem poucos eram. Em conversa com o meu ilustre amigo Sr. Dr. Alfredo de Magalhães, que foi a Alma daquela comemoração, disse-lhe que o meu Pai tinha sido um dos primeiros alunos daquela Escola e que, por isso, eu assistia com enorme prazer à festa que se celebrava.
Em 1849 foi meu Pai nomeado cirurgião ajudante do 1º Batalhão de Caçadores do Porto, mas não foi por muito tempo que exerceu aquele lugar. Por alturas de 1858 foi nomeado cirurgião interno do Hospital da Misericórdia e ali se conservou mais de quarenta anos, levando uma vida cheia de dedicações, assombrosa de altruísmo, bondade e carinho. Faço esta justiça, porque o conheci bem como médico e como homem.
Exerceu o lugar de facultativo da Cadeia da Relação, a cargo da Misericórdia, e também visitava todas as semanas os Asilos dos Velhos e dos Lázaros na rua das Fontaínhas, na qualidade de médico daqueles dois estabelecimentos de caridade.
Meu pai, como teve uma longa estadia do Hospital, ali teve como colegas e amigos os Drs. Morais Caldas, Conselheiro Ferreira, Chaves de Oliveira (pai e filho), Alves Quintela, Dias de Almeida, E. Pimenta, Oliveira Monteiro, Gramaxo e Dr. Júlio Esteves Franchini. Lembro-me muito bem deste ilustre clínico ter feito serviço com meu Pai, no Hospital, como médico interno, durante alguns anos.
Pelo Tribunal foi nomeado seu perito, o que o tornou mais conhecido no meio popular. Foi também forçado a intervir num processo escandaloso, de Camilo Castelo Branco, num conflito grave que este escritor teve com António Sales de Sousa Guedes Vieira, contra o qual desfechou uma pistola.
A propósito desde conflito, o ilustre e saudoso professor Dr. Maximiano Lemos conta este caso muito bem no seu interessante livro Camilo e os Médicos. Este episódio é acompanhado de um retrato de meu Pai(1), com notas biográficas.
Acho que será desnecessário lembrar alguns casos mais da sua honrosa e honestíssima vida de clínico, contudo, o Estado quis fazer-lhe justiça, pelos serviços prestados, concedendo-lhe o hábito de Cristo, e alguns anos antes de ele morrer dera-lhe a comenda da mesma ordem, fina distinção que muito o sensibilisou.
Morreu pobre. A época não era a mesma que é hoje. Naquele tempo a visita médica custava dez tostões e a consulta cinco, hoje a primeira consulta paga-se por cem escudos, como sucede com os primeiros médicos de Lisboa. Que diferença !
Todas as vezes que estou no Porto, não deixo de visitar o meu jazigo na Lapa. É singelo e modesto. Lá tenho o meu Pai e, a seu lado, a sua dilecta esposa, minha querida Mãe. Ao retirar-me dessa visita habitual, venho reconfortado, tendo a impressão de que estive a falar com os meus queridos mortos e que eles me abençoavam.
Lisboa
João Pimentel
in “O Tripeiro” - Série III - Ano I - págs. 181,182
(1) - o retrato reproduzido no livro Camilo e os Médicos é o mesmo que usamos para ilustrar a parte II desde artigo.
November 19th, 2005 in
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(continuação)
Órfão de poucos anos, Fortunato Pimentel lutou pela vida. Em 1825, contado dezassete anos de idade, começou a frequentar a Escola Médica.
Em 1832, com o seu curso concluído havia dois anos, atraído pelo convite de D. Miguel, foi servir como clínico no hospital de sangue da Formiga. O infante afeiçoou-se-lhe e, querendo-o distinguir, deu-lhe o hábito de Cristo, diploma e venera, e decretou-lhe a nomeação de professor da Escola Médica e a de médico da Casa Real. Todos estes sonhos de grandeza lhe caíram desfeitos pela Convenção de Evora Monte, em 1834, no entanto, o Dr. Fortunato Pimentel ficou sendo o médico queridos pelas principais famílias miguelistas do Porto.
Submeteu-se honestamente ao novo regime, não combateu os que servira nem serviu os que combatera. Exercia os seus direitos políticos sem fazer propaganda partidária e votando sempre no partido conservador, a Regeneração. Assim se fazia estimar por todos, e, sem perder a simpatia das famílias realistas, tinha a amizade de todos os partidos.
Enviuvando e, passando a segundas núpcias, aumentando-lhe os encargos de família, precisou alargar a área do seu trabalho. Solicitou e obteve o lugar de facultativo interno do Hospital Real de Santo António (Misericórdia), lugar que serviu com muito zelo mais de trinta anos. No fim deste tempo a Mesa, querendo aliviá-lo no seu trabalho, em razão da idade, passou-o para o externo, por ser serviço menos duro, e três meses antes do seu falecimento fora aposentado com o ordenado por inteiro. Era também facultativo dos asilos e enfermaria de presos, estabelecimentos dependentes da Santa Casa.
O Dr. Fortunato Pimentel prestou também relevantes serviços ao Porto durante as epidemias da cólera e da febre-amarela. Nos relatórios oficiais aparece com louvor o seu nome, como um dos clínicos que mais se distinguiram pela sua dedicação.
O benemérito Dr. Fortunato Pimentel foi pai do distinto escritor e jornalista Alberto Pimentel e do nosso colega João Pimentel, da redacção do Jornal do Comércio e Colónias, de Lisboa.
D.P.
in “O Tripeiro” - Série III - Ano I - págs. 181,182
November 15th, 2005 in
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