Fortunato Augusto Pimentel (parte III)

(continuação)

No 37º aniversário da sua morte

Sinto no coração uma saudade viva por um morto, que foi meu Pai. O calendário marcou para mim, em letras bem negras, a data do seu falecimento - 13 de Julho. Há trinta e sete anos que ele morreu.

Lembro-me desse dia como se fôra o de hoje. Era dia de Santo António. Morava eu, então, com a minha família na Rua da Boa Hora, 36, num prédio de três andares, que ainda lá está com o mesmo aspecto, mas revestido a azulejo azul.

Todo o Porto conheceu meu Pai que, pelo seu trabalho e pela honestidade de vida, se tornou credor da estima dos seus colegas e amigos. Foi quase um João Semana que trabalhou incansávelmente até aos oitenta e dois anos e que só meia dúzia de meses antes da sua morte teve de abandonar a sua clínica, por já não ter forças para mais.

Nestas linhas fugidias, escritas muito ao correr da pena, quero prestar a minha homenagem à memória desse santo velhinho que só viveu para a família numa adoração sem limites.

Meu pai nasceu no Porto e foi sempre um tripeiro de gema. Muito estudioso e com inclinação para a carreira médica, matriculou-se, muito novo, na Real Escola de Cirurgia, a 26 de Novembro de 1825, no primeiro ano da sua fundação. Cinco anos depois estava formado.

Por ocasião da celebração do Centenário da Faculdade de Medicina tive curiosidade de procurar na secretaria da Escola a matrícula de meu Pai e a de seus condiscípulos, que bem poucos eram. Em conversa com o meu ilustre amigo Sr. Dr. Alfredo de Magalhães, que foi a Alma daquela comemoração, disse-lhe que o meu Pai tinha sido um dos primeiros alunos daquela Escola e que, por isso, eu assistia com enorme prazer à festa que se celebrava.

Em 1849 foi meu Pai nomeado cirurgião ajudante do 1º Batalhão de Caçadores do Porto, mas não foi por muito tempo que exerceu aquele lugar. Por alturas de 1858 foi nomeado cirurgião interno do Hospital da Misericórdia e ali se conservou mais de quarenta anos, levando uma vida cheia de dedicações, assombrosa de altruísmo, bondade e carinho. Faço esta justiça, porque o conheci bem como médico e como homem.

Exerceu o lugar de facultativo da Cadeia da Relação, a cargo da Misericórdia, e também visitava todas as semanas os Asilos dos Velhos e dos Lázaros na rua das Fontaínhas, na qualidade de médico daqueles dois estabelecimentos de caridade.

Meu pai, como teve uma longa estadia do Hospital, ali teve como colegas e amigos os Drs. Morais Caldas, Conselheiro Ferreira, Chaves de Oliveira (pai e filho), Alves Quintela, Dias de Almeida, E. Pimenta, Oliveira Monteiro, Gramaxo e Dr. Júlio Esteves Franchini. Lembro-me muito bem deste ilustre clínico ter feito serviço com meu Pai, no Hospital, como médico interno, durante alguns anos.

Pelo Tribunal foi nomeado seu perito, o que o tornou mais conhecido no meio popular. Foi também forçado a intervir num processo escandaloso, de Camilo Castelo Branco, num conflito grave que este escritor teve com António Sales de Sousa Guedes Vieira, contra o qual desfechou uma pistola.

A propósito desde conflito, o ilustre e saudoso professor Dr. Maximiano Lemos conta este caso muito bem no seu interessante livro Camilo e os Médicos. Este episódio é acompanhado de um retrato de meu Pai(1), com notas biográficas.

Acho que será desnecessário lembrar alguns casos mais da sua honrosa e honestíssima vida de clínico, contudo, o Estado quis fazer-lhe justiça, pelos serviços prestados, concedendo-lhe o hábito de Cristo, e alguns anos antes de ele morrer dera-lhe a comenda da mesma ordem, fina distinção que muito o sensibilisou.

Morreu pobre. A época não era a mesma que é hoje. Naquele tempo a visita médica custava dez tostões e a consulta cinco, hoje a primeira consulta paga-se por cem escudos, como sucede com os primeiros médicos de Lisboa. Que diferença !

Todas as vezes que estou no Porto, não deixo de visitar o meu jazigo na Lapa. É singelo e modesto. Lá tenho o meu Pai e, a seu lado, a sua dilecta esposa, minha querida Mãe. Ao retirar-me dessa visita habitual, venho reconfortado, tendo a impressão de que estive a falar com os meus queridos mortos e que eles me abençoavam.

Lisboa

João Pimentel

in “O Tripeiro” - Série III - Ano I - págs. 181,182

(1) - o retrato reproduzido no livro Camilo e os Médicos é o mesmo que usamos para ilustrar a parte II desde artigo.

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